Nó Cego e Bengala de Cego

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

INSIGNIFICÂNCIA


Ele cultivava dentro de si uma alma sem rosto.
E a angústia de não ser quem gostaria.
Assimilando os desejos,
os discursos e os hábitos de quem com ele convive,
percebe-se nu à noite e só no caminho de volta para casa.
Nada dele é dele.
A casa, o trabalho, os pensamentos.
É como um títere que se auto controla,
sem força,
sem si mesmo,
que cansa e desmorona.
E sente raiva,
e aguça os defeitos alheios,
e goza com eles,
procurando assim uma forma de não querer ser quem já não é.
Mas falha.
E chora.
E numa tentativa frustra de escrever sua biografia,
lembra-se apenas das memórias,
dos outros.
Um repórter por excelência.
E tentando encontrar em seu passado feitos propriamente seus,
percebe apenas sofrimentos banais que rodeiam uma única tragédia real:
sua incapacidade de ter se criado.
Nada mais posso escrever sobre ele,
pois nada mais há para ser escrito.
Resta em mim, um alívio tremendo por não ser ele, por eu ser eu.

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